
NOVO EXCERTO
A pedido, aqui fica um novo excerto do RIO DA GLÓRIA. Trata-se de um momento de uma história que Mário, uma das personagens principais, ouve contar. E é em virtude do relato das desventuras de Zeca Fumaça, que aqui se esboçam, que ele decide mudar o rumo do seu percurso.
"Viu-lhe primeiro o rabo temível, oscilando de um lado
para o outro, sinal de ferocidade. Depois o corpo malhado. E,
finalmente, a grande boca sangrenta dentro do peito aberto de
Jandira. A onça-pintada comia os órgãos que ainda há pouco
se ocultavam sobre os seios fartos da mulher. A onça alimentava-
se de tudo o que sustinha Zeca Fumaça, como se jantasse
na mesa de um padre em deboche. A dor bateu em Zeca como
uma montanha de pedras que lhe desabasse sobre o corpo e a
cabeça. Da sua boca saiu o grito "Jandira!", e precipitou-se,
a faca em punho, na direcção do animal. Era preciso soltar a
mulher, quem sabe ressuscitá-la. A onça não estava disposta
a ceder o seu bocado. Recebeu Zeca com as garras abertas e
as patas na frente do corpo. Mas ele nem sentiu as feridas,
ocupado com a visão da mulher pedindo socorro, morta.
Cravou a faca no bicho, uma, duas, mil vezes, até que um véu
opaco desceu sobre os olhos do animal e um de tule negro
sobre os seus. Quando acordou, tinha uma onça no peito e
tudo o mais desaparecera da sua vida...."
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